Lidar com a culpa e a frustração não é fácil para ninguém, principalmente quando a realidade nos mostra que o idealizado e desejado estão um pouco distantes.
Qual mãe ainda não se desperou pensando que não dá ao seu filho a atenção que queria e que ele merecia?..
E não é pra menos; as teorias, referências, pensamentos, estudos e pesquisas sempre nos remetem à ideia da privação emocional (como em Ainsworth, que fala sobre a Privação emocional por relações insuficientes, Privação emocional por relações distorcidas e Privação emocional por relações descontínuas). É claro que não podemos desconsiderar em nenhuma hipótese a história pessoal, minha questão é sobre o exagero na atribuição de culpas usando apenas argumentos que até explicam, mas nem sempre justificam.
Culpar os pais por trabalharem, assistirem a telejornais, se separarem, tomar um choppinho, estarem cansados ou até mesmo por estarem doentes, é um pouco cruel... Deve-se observar a intensidade, a autenticidade e a continuidade da relação emocional com as figuras parentais e não apenas a quantidade e não focar o olhar apenas nesta relação.
Até porque uma relação emocional distorcida pode ser tão prejudicial quanto a sua ausência.Mesmo a família sendo a primeira relação emocional da criança, com o passar do tempo ela passa a não ser a única. E ainda existem crianças que desde o seu nascimento são privadas desta relação parental, e mesmo ficando uma lacuna na construção da afetividade, esta ausência não pode ser considerada a única determinante das futuras consequências. Ao longo do tempo a criança amplia as suas relações, desperta novos interesses, desejos e faz suas escolhas em um enfrentamento e reorganização de seus valores antigos e novos.
Pois bem, mesmo diante de conceitos e desejos em acertar sempre, o ideal de família onde todas as necessidades são prontamente saciadas não existe (até porque seria uma relação quase escravocrata), então só culpar a ausência desse amor é culpar o imaginário.
Muitas vezes essa relação de culpa (que às vezes é criada e legitimada) abre espaços para uma permissividade onde o que determina não é o afeto e sim a insegurança e o descontrole.
E será que a criança quer realmente seus pais grudados nelas o tempo todo?
Que criança prefere ficar jogando com sua mãe ao invés de correr e brincar com os amigos?
Brincar com os pais é legal, mas vamos ser sinceros, se tiver amigos juntos vai ficar muito mais divertido.
Em contrapartida, existem responsabilidades que penso, devem ser atribuídas às famílias, que são a omissão, o relaxamento, a conivência com o erro, as mentiras para livrar os filhos, a permissividade e a falta de autoridade, disfarçados em um discurso repetido da criação da culpa.
Muitas famílias não têm compromisso com a educação de seus filhos, preferem criar desculpas para justificar situações do que encarar e agir diante das necessidades. E algo que considero lamentável, muitas vezes essas famílias omissas usam o discurso da própria escola e de especialistas para criarem o seu próprio discurso da conveniência.
Marcia Jacob Vieczorek
Falta de amor ou falta de limite?
ResponderExcluir