sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Chega de Reduzir a Violência Infantil a Análises Simplistas


Ao analisar o fenômeno da violência infantil e juvenil, vemo-nos diante de uma série de dificuldades, não apenas porque o fenômeno é complexo, mas principalmente, porque nos faz refletir sobre nossos próprios valores. é importante lembrar que a violência infantil e juvenil não é algo novo na história da humanidade, mas a forma como é vista é que muda ao longo das construções históricas, culturais, ideológicas e políticas. Sendo assim, buscar definir um conceito de violência não é apenas refletir sobre nossos valores pessoais, mas buscar uma análise de diversos fenômenos onde a violência está inserida, pois a consideração de diferentes perspectivas possibilita uma infinidade de compreensões de violência. Mas, ainda assim considero importante lembrar que a sua compreensão acompanha as mudanças através dos tempos e dos lugares. Talvez essa dificuldade em defini-la nos atrapalhe um pouco na hora de distinguir casos de indisciplina de casos de total desrespeito e falta de limites que passam a entrar no campo da criminalidade quando se manifesta na esfera escolar.
E o que temos notado é que a grande maioria dos profissionais da Educação não sabe tratar e distinguir os alunos indisciplinados dos agressivos e violentos, arriscando pseudo-diagnósticos que na maioria das vezes apenas legitima o erro e não resolve o problema.

As diferentes manifestações de violência vêm adquirindo cada vez mais importância e dramaticidade na sociedade brasileira, como podemos observar através da mídia, em debates nas escolas e universidades e em conversas informais na porta da escola, bar, clube, casa de amigos... Ou seja, não é mais apenas um problema que antes fazia parte do universo dos “meninos de rua” debatido e discutido por quem estava distante dessa realidade e se sentia no poder de analisá-la e julgá-la, fazendo-a de uma forma reducionista e simplista.
A mídia ao alcance de quase todos permite e acelera as informações (mesmo aquelas que alguém queria esconder) e os casos de jovens filhos de famílias favorecidas economicamente que cometem crimes começaram a aparecer. Na verdade, as manifestações de agressividades infantil e juvenil sempre estiveram presente em todas as esferas da sociedade, só que agora não está dando mais para esconder ou disfarçar.
E na escola, onde é o lugar de encontro de crianças e adolescentes, a violência é um fenômeno que se desdobra no ambiente da instituição escolar. Por isso essa problemática tem implicações do ponto de vista da prática educativa, e suas diferentes manifestações têm preocupado de forma especial pais e educadores. Apesar disso, os olhares dos pesquisadores têm-se voltado majoritariamente para as manifestações de violência entre jovens das classes populares, incluindo ainda de forma errônea a afirmação de que a falta de amor e atenção aumentam a violência, o que na prática vemos que não é verdade.
Volto a enfatizar que não restam dúvidas de que as diferentes formas de violência estão disseminadas em todos os espaços de atuação humana, e reduzi-la unicamente a situação sócio econômica e afetiva não nos ajuda a resolver este problema.
Buscando uma análise sobre o fato, é possível destacarmos alguns aspectos que têm caracterizado nossa sociedade nos últimos anos: o intenso processo de urbanização, as migrações internas com suas conseqüências de desenraizamento social, cultural, afetivo e religioso, a acelerada industrialização, o impacto das políticas neoliberais, a expansão das telecomunicações, a cultura do consumo, a má distribuição de renda, a crise ética, a má interpretação de conceitos e informações das áreas de educação, psicologia, saúde e direito, e o que me parece muito grave: a desvalorização do papel e função dos responsáveis e tutores, muitas vezes confundidos pelos próprios pais e responsáveis.

Pesquisas realizadas pela UNESCO com jovens de diversas cidades do Brasil (Brasília, Fortaleza, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo), permitiram verificar que, aproximadamente, 60% dos jovens na faixa de 9 a 17 anos de idade foram vítimas de algum tipo de violência nas unidades escolares nos últimos anos.
Em outro estudo também é verificada a escala de violência que vitima nossa juventude: a taxa de mortalidade na faixa etária de 10 a 17 anos por causas violentas duplicou nas duas últimas décadas. No contexto internacional, índices de homicídios entre jovens são extremamente elevados. Outras informações são ainda mais preocupantes: no plano nacional, 40% das mortes entre jovens devem–se a homicídios. Nas capitais do país, essa proporção se eleva para 47% (Waiselfisz, 2002).
E um fato muito importante que nos orienta a pensar sobre a violência é que a pesquisa foi feita com diversas famílias, inclusive famílias da lares estruturados e afetuosos, famílias que passeavam, conversavam e apoiavam seus filhos.
E então? Podemos continuar apenas a considerar como “coitadinhos” as crianças e adolescentes que cometam atos violentos e agressivos? Já não está na hora de observar o que entra na esfera de crimes e psicopatologias?

Marcia Jacob Vieczorek

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